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Hermetic Fake NewsPosted by on


No texto anterior, citei alguma coisa referente à captação e processamento de informações e me comprometi a abordar isso em ocasiões posteriores. A ocasião é esta e eu já preciso adiantar que não; o importante não é você saber que nada sabe, assim como não é você compreender que toda informação deve ser absorvida. Nos dois casos, você está preso à Lei da Polaridade e como ela mesmo diz, os extremos se tocam.

Para começar então, falando de fake News e Hermetismo, vamos com este primeiro oposto, afinal de contas, tentar usar uma frase famosa de um filósofo famoso (que tenho certeza que metade das pessoas que usam essa frase não sabem que é e a outra metade nem desconfiam) para ignorância ou, em grande parte, sua fé a despeito da fé de outrem é o que podemos chamar de “primórdios do fake news”. A frase famosa “tudo o que sei é que nada sei” partiu de Sócrates[i] e um pequeno estudo sobre a obra deste autor já nos daria uma espécie de “pista” para a imensa bobagem que é usar essa frase para afirmar a fé. Explico-me:

Não se sabe exatamente quem foi este personagem, tudo o que podemos supor dele é através de relatos de seus alunos. Isso era muito comum na Grécia clássica e em outras civilizações do período, dado que o homem era reconhecido por suas obras e não por si mesmo. Sócrates, então, foi preso algumas vezes por conta da “periculosidade” de sua filosofia e tal característica advinha exatamente do questionamento às coisas. Ele ensinava “a arte de perguntar”. Segundo Stavemann, H, O método socrático consiste em uma técnica de investigação filosófica, que faz uso de perguntas simples e quase ingênuas que têm por objetivo, em primeiro lugar, revelar as contradições presentes na atual forma de pensar do aluno, normalmente baseadas em valores e preconceitos da sociedade, e auxiliá-lo assim a redefinir tais valores, aprendendo a pensar por si mesmo, que é, em primeira análise, exatamente dizer que tudo o que sabe, é que nada sabe.

O que quero dizer aqui é que esta afirmação de Sócrates faz uma referência exatamente oposta aquela que você quer dizer quando usa sua frase: não se deve acreditar em deus porque tudo o que sei é que nada sei e que deve existir mais coisas no universo do que podemos imaginar, o que se deve fazer é se questionar a respeito da existência deste deus. Acreditar em homeopatia somente por acreditar ou assumir que Ayahuasca não é uma droga entorpecente só porque você quer é exatamente o oposto do que o autor da frase propunha. No primeiro caso, faz-se necessários comprovações espetaculares, já que a afirmação em si já é espetacular; no segundo, deve-se questionar a respeito do processo e do que agiria no funcionamento do preparado, assim com no terceiro caso, bastaria uma simples pesquisa sobre o vocábulo “droga” e “entorpecente”. Aqui, neste caso em particular, temos além de um ótimo exemplo sobre o que é um fake News, também seu perigo: a palavra “droga” não tem em si algum tipo de conotação positiva ou negativa, mas a incompreensão de seu significado acaba por tornar a palavra negativa e, por consequência, os usuários desta droga, por pura ignorância, acabam se tornando propensos a se sentirem ofendidos.

Sei que você pode estar me condenando por ter perdido tanto do seu tempo neste prólogo alongado do texto, mas é que aí é que reside todo o questionamento a respeito de um fake News hermético: Para se compreender uma questão de forma relevante, é necessário um pensamento e uma pesquisa um pouco mais profunda do que simplesmente o “bater de olhos”, que é tão feito hoje em dia. Quero citar um exemplo disso:

O último texto que publiquei, trazia o título “Ideologia de gênero no hermetismo”, exatamente porque eu queria levantar a necessidade da pesquisa sobre aquilo que vamos falar antes de falar e também, a obrigação que todos nós deveríamos ter em não colocar o humano em caixas e, com isso, desrespeitar toda uma cadeia de sentimentos e questionamentos em troca de uma pequena palavra. Me assombrou, no entanto, um determinado estudioso explicitar um comentário “identidade de gênero não existe” no campo correspondente de uma publicação divulgação sobre o assunto, em uma rede social.

Ora, isso estava explícito no segundo parágrafo do texto e quando li aquilo, fiquei imediatamente preocupado. Isso porque, até então, era uma pessoa que eu respeitava em outra linha de pensamento que não o Hermetismo. Tenho como praxe não responder mais a questões levantadas no Facebook, mas esta em particular eu resolvi responder por uma única situação: era certo que esta pessoa não tinha lido o texto, entretanto, tinha criado um conceito sobre mim a partir de uma frase exposta. Esse conceito, claro, seria espalhado de uma forma ou de outra, dado que esta pessoa tende a ser um formador de opinião. Um possível fake News estava em ebulição, pronto para ser criado.

Esta situação pode parecer ao leitor de primeira fila uma reclamação de minha parte ou uma espécie de indireta, mas gostaria de sugerir que você a encarasse mais como um alerta: Se esta pessoa em particular, que vive a citar títulos de livros e matérias com certo peso, tomou uma atitude de desmentir um texto que desmentia o que ele queria desmentir, então como será a interpretação dos textos citados em si? Será que há uma leitura aprofundada e coesa, ou somente um passar de olhos e conclusões sobre? Será que existem perguntas criadas a partir da leitura dos tomos, ou somente a fortificação das verdades já assumidas previamente?

Compreendam: este ponto do texto não é, de forma alguma, um ataque pessoal ou coisa do gênero, mas sim um exemplo bastante pontual do que é um possível fake News nascendo.

O Hermetismo é a busca incansável da explicação que explica as explicações e isso não acontece quando levantamos conclusões precipitadas ou definitivas sobre assuntos amplos e complexos. Claro, tudo tende a sua simplificação e é isso que buscamos, mas estas simplificações precisam passar constantemente por revisões, de acordo com as informações novas que são apresentadas.

Veja; no período medieval, uma série de tomos mágicos foram criados. Alguns deles foram modernizações de tomos ainda mais antigos, outros foram criados a partir de situações mágicas (como mediunidade e afins). Longe de negar sua veracidade, mas é preciso, pelo menos, compreender que estes tomos foram escritos em um período onde o pensamento lógico fora eclipsado e isso continuou assim por séculos. A idade média negou o pensamento e as descobertas anteriores e basicamente reiniciou o pensamento a partir da ideia central de uma divindade, então o próprio conceito de daemons grego já não era mais a mesma coisa. O que mais importa aqui, entretanto, é que a idade média acabou e, com isso, a ciência evoluiu a ponto de descobrir de forma mais completa certos mecanismos mentais que carregamos. A pareidolia, por exemplo, já explicaria fenômenos de aparições de demônios antigos. A paralisia do sono tomou o lugar dos incubbus e succubus, a esquizofrenia explica as vozes dos demônios na cabeça de uns e outros.

Claro que, com isso, não nego necessariamente a existência destes fenômenos, mas afirmo, com certa margem de certeza, que nem todos os fenômenos creditados ao sobrenatural são, de fato, sobrenaturais. Afirmo também, com uma margem ainda maior de certeza, que a falta de informações sobre o mundo real cria fantasmas onde eles não existem, dado que eles de fato existam.

Agora, talvez um “finalmente” caiba aqui, já que levantei o ponto “a falta de informação” no parágrafo anterior, vamos falar sobre isso.

Informações são importantes sim, todos deveríamos ter isso em mente todos os minutos de nossas vidas, mas nem todas as informações que absorvemos são, de fato, informações. Para que fique claro isso, precisamos de uma desambiguação:

Informação, de uma forma geral, é a resultante do processamento, manipulação e organização de dados, de tal forma que represente uma modificação (quantitativa ou qualitativa) no conhecimento do sistema (humano, animal ou máquina) que a recebe[ii]. Em outras palavras, informação não é somente aquilo que se absorve do meio, mas é algo que, quando absorvido, cause uma modificação em quem a absorveu.

Essa modificação pode entrar em discussão, mas de fato nós temos boas informações e más informações e hoje em dia, está muito difícil separar esses dois extremos, dado que por conta de algoritmos de pesquisa de ferramentas como Google ou ainda das mídias sociais como o próprio Facebook, a tendência é que sempre naveguemos em águas conhecidas, ou seja, sempre sejamos bombardeados por informações que confirmem aquilo que já sabemos.

Faça um teste um dia e busque no google a respeito da durabilidade de uma mochila. Automaticamente você começará a receber anúncios sobre mochilas e, se clicar em um deles, ou pesquisar mais algumas vezes, outras informações sobre mochilas aparecerão. Se você pesquisou por “Curtlo é a melhor mochila”, depois por “especificações técnicas sobre mochilas Curtlo”, dificilmente você encontrará notícias que vão dizer, no futuro, que outra marca é melhor, mesmo que isso exista. Isso porque os algoritmos do Google e Facebook vão identificar seu interesse por “mochilas Curtlo” e vão te apontar sempre para esse caminho. Sim, tanto Google quanto Facebook influenciam nas respostas das pesquisas e no caso do Facebook, a influencia é até expressada nas coisas que você verá no seu Timeline.

Isso não é, de forma alguma, uma espécie de manipulação do governo ou de uma entidade financeira, é inicialmente, uma forma de tentar te deixar feliz: eles entendem que, quanto mais tempo você estiver na sua área de interesses, mais tempo feliz você estará. De certa forma eles estão certos, mas isso dificulta a aquisição de informações contrárias as que você acredita. Busque por “por que Terra plana é verdade?” e nunca mais você encontrará artigos, postagens ou memes sobre a Terra esférica.

Claro que isso tem sua benesse e seu malefício (ou como os gregos gostariam de trazer; sua tese e sua antítese): você fica mais tempo em sua zona de conforto enquanto não consegue qualidade de informação.

Uma das formas mais simples de adquirir informação com qualidade é procurar os periódicos científicos especializados naquele assunto em particular (quando isso é possível). Isso porque os periódicos funcionam de forma exatamente oposta da forma como estamos falando que o Google funciona: antes de publicar um artigo, ele é enviado a revisores que vão tentar desmentir o que está escrito com métodos científicos, vão recalcular todas as equações, refazer as experiências e tentar, de todas as formas, provar que o artigo original está errado. Cientistas ganham nome assim, provando que outros cientistas estão errados, então eles vão se esforçar para isso. Quantos já não tentaram provar que Einstein estava errado em sua teoria geral da relatividade e falharam miseravelmente? Aliás… Einstein só é Einstein exatamente porque sobreviveu a essas tentativas.

Claro que existem aquelas situações que não podem ser procuradas em periódicos científicos, então o que fazemos com elas?

É, isso é um pouco mais complicado, mas não impossível. Devemos procurar quem desmente aquilo que acreditamos.

A Goétia é real e funcional? Por quê? E por que, não é? Mathers[iii] fala a favor da Goétia, alguém fala contra? Então quer dizer que nós evocamos demônios presos por Salomão, então quem são esses demônios? O que sabemos HOJE sobre demônios? Onde há o cruzamento das informações?

Bolsonaro é um bom presidente. Quem fala contra? Bom por que e por que não seria?

E as fake News contam com um mecanismo nativo do ser humano, que nos ajudou muito em nossa evolução biológica através das eras, mas hoje, na “era da informação”, atrapalha mais do que ajuda: Nós concluímos antes de compreendermos.

Mas isso já é assunto para o próximo texto.


[i] Sócrates (em grego: Σωκράτης , IPA: [sɔːkrátɛːs], transl. Sōkrátēs; Alópece, c. 469 a.C. – Atenas, 399 a.C.) foi um filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga. Creditado como um dos fundadores da filosofia ocidental, é até hoje uma figura enigmática, conhecida principalmente através dos relatos em obras de escritores que viveram mais tarde, especialmente dois de seus alunos, Platão e Xenofonte, bem como pelas peças teatrais de seu contemporâneo Aristófanes. Muitos defendem que os diálogos de Platão seriam o relato mais abrangente de Sócrates a ter perdurado da Antiguidade aos dias de hoje.

[ii] Serra, J. Paulo (2007). Manual de Teoria da Comunicação. Covilhã: Livros Labcom. p. 93-101. 203 páginas. ISBN 978-972-8790-87-5

[iii] S. L. MacGregor Mathers

Saiba mais sobre isso assistindo os vídeos abaixo:

hermetismo e...

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